Memória Musical

É difícil determinar com precisão os elementos que conduziram à adoção do reggae pela população maranhense como um rítmo popular local, levando a capital São Luís a ser conhecida como a Jamaica Brasileira. O rítmo de reggae se espalhou pela capital maranhense principalmente entre os bairros periféricos, que, assim como a Jamaica, são constituídos predominantemente por uma população negra, fato que cria uma conexão identitária muito forte entre os dois grupos. Mesmo sem entender o idioma, o reggae é traduzido como um veículo legítimo de mobilização e identificação da população negra de baixa renda que habita as invasões e palafitas da cidade.

Uma diferença marcante com relação a Jamaica, e certamente a outros lugares onde o ritmo de reggae é conhecido, é que em São Luís o reggae é dançado tanto aos pares quanto individualmente. Na capital maranhense, a dança do reggae adquiriu característica peculiar misturando passos do forró, do merengue e do bolero. Há ainda os que preferem criar coreografias coletivas, em que três, cinco ou mais pessoas dançam com passos coordenados.

Em São Luís, um dos fatores importantes para a divulgação do reggae é a existência das chamadas radiolas, sistemas sofisticadas com até quarenta caixas de som que, geralmente, contrastam com a pobreza dos salões de festas. A partir de meados da década de 1980, houve uma proliferação de radiolas, voltadas quase que exclusivamente para a promoção das festas de reggae.

Em uma entrevista concedida ao Imirante.com, Benedito Martins, mais conhecido como Biné Roots, da equipe de sonorização da Star Roots e presidente da Associação de Grupo de Colecionadores de Reggae do Maranhão (Agrucorem), detalhou um pouco sobre a sua paixão pelo reggae e principalmente pelos vinis.

“Iniciei minha coleção em 1983, e logo cheguei a ter 180 LPs, mas fui roubado. Passei alguns anos desiludido e sem querer voltar a colecionar, só que a partir do momento que você dá início a essa paixão não consegue deixar”, disse Biné.

Segundo as informações do Jornal, atualmente o acervo de Biné conta com 1.200 compactos e 980 LPs, tendo um deles um valor especial para o colecionador.

Levei três anos negociando o LP do cantor Pierpoljak. Isso tudo só pra tocar e ouvir a música Tout Là-haut. Nem acreditei quando fechei a negociação”, conta Biné de forma entusiasmada ao jornal.

Outro colecionador e amante do reggae e dos vinis é o jornalista e DJ Ademar Danilo. Ademar Danilo não se satisfez em conhecer a Jamaica simplesmente pelo som e pelas letras das “pedras” que ouvia. Ele já viajou diversas vezes à Jamaica para prestar visita às antigas gravadoras e, obviamente, garimpar algumas raridades. Seu acervo acumula mais de 3 mil discos e compactos de reggae. Seu maior orgulho é ter toda a discografia completa de Bob Marley em vinil, incluindo os compactos simples, lançados sem selo de gravadoras.

“Gosto de brincar de dizer que tenho a maior coleção de discos de reggae do Maranhão. Aqui temos muito do material gravado na década de 1960 na Jamaica, mas perdemos ainda para o Japão e para a Inglaterra, que tem o maior acervo”, diz o DJ, dono do Chama Maré, radiola de reggae no bairro da Ponta d’Areia.

As rixas entre as radiolas ludovicenses

Colecionar vinis é para quem tem paciência de quem planta carvalho e não eucalípto. Tal dedicação se tornou hábito para centenas de pessoas e possibilitou a formação de colecionadores de vinis, que iniciaram uma briga semelhante ao que acontecia na Jamaica nos anos 80.

Na ilha caribenha os DJs tinham o hábito de raspar o selo para o produto ser visto como raridade. Em São Luís, muitos colecionadores e agentes acabaram viajando inúmeras vezes para a Jamaica e Inglaterra para adquirir discos até então desconhecidos na Ilha.

A disputa era tão acirrada que às vezes eram comprados números repetidos de um único disco para que outros não conseguissem ter um igual. Em alguns casos, há registros de pessoas que brigaram em festas, incendiaram carros e outras que trocaram carros por um único vinil.

“A disputa por esses espaços (radiolas), como não é um movimento que foi promovido pelas gravadoras, acabou ficando muito fixado a uma relação pessoal. As pessoas criaram um acirramento. Tudo isso deu a projeção que o reggae tem em São Luís”, explica o professor Carlos Benedito da Silva, antropólogo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Documentários

Dois pequenos documentários que encontrei no YouTube reforçam este post sobre o vinil e sobre o reggae em São Luís. O primeiro é o “Poetry and Reggae in São Luís” de Christoph Janetzko, que é um documentário independente que dá uma visão da poesia, música e dança em uma cidade predominantemente habitada por uma população negra. O segundo é da CGNT America, que da mesma forma nos trás um pouco mais sobre a cultura do reggae na capital maranhense.

Por: Gustavo Guimarães